Final de Março, não vejo TV, mas sou frequentador assíduo de portais de noticia, o mundo se assusta com um vírus infeccioso do trato respiratório se alastrando durante o inverno no hemisfério Norte.
Eu cá na América do Sul, verão, estou me internando para uma cirurgia.

Acordei da anestesia, uns dias de observação e tenho alta do hospital, já estamos em quarentena. Estranho isto, literalmente, havia entrado no quarto com tudo normal, e ao sair, ninguém nas ruas e o medo paira sob olhares de quem não teve alternativas e está sobre o chão da calçada (agora limpa) e usando mascaras.

Já estamos em Julho, faz-se quatro meses nesta situação, quatro meses que se parecem oito. Realmente, não me lembro do que fiz em Janeiro, Fevereiro ou Março, a cirurgia deixou-me uma cicatriz e desde então tudo que faço é sanitizar as mãos, usar mascara e ficar de um lado para outro no minusculo apartamento. A vida nos trás tascos de sarcasmos as vezes, moro próximo de um zoológico, nunca fui lá, confesso, mas nestes quatro meses pensei como os animais estão lá a anos, irracionais, precisam que alguém os prendam pois soltos correm risco de vida... (ops, acho que com nós, humanos racionais, também seria aplicável tal abordagem?), mas penso na hiena, andando de uma lado a outro da jaula e rindo. Estou quase lá.

Desfiguramos a morte e nos recusamos o estado de luto, são apenas números, duzentos, quinhentos, novecentos, um mil e trezentos por dia. Em quatro meses morreram exatamente o que morre na violência do país em um ano inteiro (e ninguém nunca se preocupou, e olha que somos mais violentos que qualquer pais do Oriente Médio). A morte não assusta mais, não dá medo, estamos com tédio.

Isto claro, até vermos a morte. O que lhe traz, leitor, ao meu último paragrafo nesta crônica.
Hoje pela manhã entrando no banho estava organizando mentalmente as tarefas do dia, a água gelada bate no corpo e começa a esquentar (sempre esqueço deste detalhe do chuveiro elétrico), a vista começa a embaçar, a visão fica turva! Ainda ofegante pela água gelada na cabeça, tento recobrar a consciência e manter-me de pé, encosto na parede e tento verificar se há outro sintoma, continuo sem visão, mas agora a água está quente demais... Entre pedir ajuda e ajustar o registro, opto por este último, o ardor na pele é maior que a possível tontura que ainda não veio.
Penso em tudo que há nos primeiros parágrafos deste texto, que infelicidade! A morte não assusta, não dá medo, mas agora meu coração dispara, será que morri no hospital e tudo isto que estou a viver faz parte de algum purgatório? O que será de mim? Na verdade, o que não será mais de mim! Antes de mais pensamentos existenciais tornarem a me perturbar, levo minhas mãos ao rosto: Ah, sim... ok... esqueci. Entrei no chuveiro de óculos.